Como o Triathlon me ajudou a equilibrar a vida e sair da liderança solitária
Desde a infância, fui apaixonado por esportes. Minha mãe dizia que o esporte que fosse, independente do país e da divisão, que estivesse passando na TV, eu estaria assistindo. Não só assistir, como acompanhar atletas e praticar diariamente. Dos 11 aos 15 anos, minhas tardes eram tomadas por treinos de futebol, natação, judô, entre outros que as vezes eram interrompidos por aulas de inglês ou trabalhos escolares. A ênfase dos estudos, com o esporte, vida social e a família me ajudou muito a conseguir me sentir bem e ser 100% presente onde eu estivesse.
No período em que morei na França, me aventurei a aprender Rugby, já que a cidade de Clermont-Ferrand tinha uma grande tradição no esporte. Porém, depois de algumas lesões traumáticas, decidi que pela minha integridade física em um país longínquo, seria melhor buscar outras alternativas. A corrida foi minha companheira, em toda a jornada. Apesar de eu não amar o esporte, a facilidade em praticá-lo e a companhia do meu grande parceiro Ricardo incentivavam a prática. O equilíbrio entre o foco na vida profissional, o esporte e a vida social me ajudaram muito a desfrutar do período em que passei na Europa da melhor maneira. Nem sempre, ao longo da jornada foi assim.
Ao voltar ao Brasil, me mudei
para São Paulo e intensifiquei os treinos. O objetivo era conseguir me preparar
para uma prova de Triathlon, porém a nova rotina começou a me consumir. O amor
pelo trabalho era tão grande que não me deixava buscar outras coisas. Fortaleci
muito o pilar do desenvolvimento profissional e esqueci dos demais. Acabei
desequilibrando um pouco minha vida. Nos últimos meses de 2019, ganhei muito
peso e atingi o ápice dos 104kgs. O peso, a falta de mobilidade e o
distanciamento da prática esportiva me fizeram dar um basta naquela situação.
Talvez, naquele momento, eu não tenha tido a capacidade de identificar
corretamente os gatilhos que me deixaram tão mal e mudei quase tudo em minha
vida. Mudei de trabalho, indo para a empresa familiar, mudei de cidade,
retornando para Barbacena (interior de Minas), sai de um relacionamento e mudei
meus hábitos de treino e alimentares. Perdi 20kgs e me reengajei no esporte, buscando o novo balanço das diferentes dimensões da vida.
Foram muitas mudanças drásticas,
o que pode ter me dificultado na adaptação com todas elas. Mas a partir dali,
tomei uma decisão em minha vida. A prática de atividade física, seja ela de
alta intensidade com foco em alguma prova, ou apenas para manutenção da saúde,
será sempre presente em meu dia a dia, com alta prioridade. Isso faz bem para o
meu corpo e para minha mente.
Desde pequeno, tenho problemas
com a balança. Isso me criou um receio enorme de envelhecer acima do peso,
impactando minha autoestima e desenvoltura. Acredito que a disciplina com os
exercícios me ajudará na longevidade e mais que isso, em ter uma velhice saudável
e com o mínimo de limitações físicas.
Nestes últimos dois anos e meio,
conto nos dedos os dias que perdi um treino. Sinto falta quando não consigo
encaixar em minha rotina, ao menos uma mínima atividade. Esta disciplina me conduziu
a conseguir realizar provas que eu me desafiei. A mais complexa até agora: o
Ironman 70.3 Florianópolis. Disciplina, até então, era uma competência que eu
julgava que não tinha. No entanto fui capaz de mostrar a mim mesmo que eu
estava errado. O entendimento que passei a ter do meu corpo, da minha mente e minha capacidade, adquiridos no esporte, me auxiliam diariamente em todos os âmbitos de minha vida. A resistência, a confiança na jornada e o entendimento das situações.
A jornada de treinos até a prova
é a pavimentação tanto físico quanto mental para atingir o objetivo. Em 2022,
quando fiz meu primeiro Triathlon sprint, meu treinador disse que eu poderia me
inscrever no UaiTri, prova da mesma distância do 70.3 que eu conseguiria fazer.
Pensei que ele estava louco. Porém, ele me disse que na primeira prova, tudo
saiu fora do controle e eu consegui me manter no foco e finalizar a prova bem.
Então, a parte mental estava encaminhada, precisava ganhar casca. A parte física
desenvolveríamos e aquela seria um primeiro desafio para ganhar confiança para
o Ironman Florianópolis.
Assim o fiz, me inscrevi. Fiz
outras provas menores na jornada, aprendi muito em cada uma. Sofri Muito para
conseguir finalizar a prova. Minha água acabou na segunda volta da bike. Sofri
muito já no final do pedal e em toda a corrida. Levei meu corpo ao limite. Não
conseguia mais ver comidas doces, me desidratei. Mas mais que isso, não havia
me preparado nutricionalmente para aquilo. Finalizei na raça. Chorei muito ao
longo da prova. Não me lembrava do endereço de casa ao final. As pernas latejavam,
as câimbras queriam vir, não foquei nelas. Conclui meu desafio.
Esta prova me mostrou que eu
seria capaz, mas eu precisaria me conhecer um pouco mais. Entender melhor os sinais
que meu corpo dava. Me preparar, conversar com pessoas mais experientes e
evoluir meu treinamento. Fiz uma pequena prova em seguida e me diverti muito. Comecei
a prestar mais atenção nos pequenos sinais e no que poderia causar cada
situação. Descobri a importância da reposição de sais. Mas mais que isso,
aprendi a me escutar e entender o que eu precisava, tanto durante a prova
quanto durante a jornada de treinos.
Foram mais 6 meses de preparação até Florianópolis. Lembrando que a vida não é apenas treinar. Precisaria conciliar com ser um pai presente, que não abrirei mão jamais, manter minha carreira profissional em desenvolvimento e fortalecer meus negócios. Porém, assumi que os treinos são uma grande válvula de escape para mim. Cada momento tenso ou qualquer sobrecarga mental que sinto em minha vida, utilizo o esporte com alta intensidade para extravasar. Isso fez com que nos sete primeiros meses de 2023 eu tenha deixado de treinar apenas dezenove dias, a sua maioria com descansos programados, sendo uns com treinos mais curtos e outros mais longos, seguindo ao máximo o que o treinador indica.
Ao falar da rotina de treinos, outro aspecto desenvolvido constantemente é o planejamento e organização. Alguns de meus familiares costumam dizer que sou desorganizado e não me planejo. Isso mostra, muitas vezes, seu distanciamento de minha rotina e realidade (é importante salientar que precisamos ter muito censo crítico para ouvir o que os outros dizem). Praticar Triathlon, treinando uma média de 12 a 15 horas semanais, conciliando com a presença na família e execução das atividades profissionais no mesmo nível, não é possível se não houver planejamento e organização. Realizar uma prova de endurece, com alta demanda física e nutricional, sem planejamento e organização não é possível. Assim como liderar o turnaround de um negócio, sem organização e planejamento não é possível.
A natação é quase uma terapia. Normalmente vou para a piscina logo pela manhã, poucas vezes no fim do dia, caio na água e rapidamente os pensamentos diversos aparecem. É o momento de conciliar a concentração no treino com a organização dos pensamentos. Esta é a melhor forma de estruturar conversas complexas. Costumo sair da piscina correndo anotar diversos pontos que não posso esquecer.
A corrida é a atividade que menos gosto. Porém é o mais fácil de conseguir treinar, ativar o corpo e colocar a famosa endorfina na corrente sanguínea, principalmente quando estou em viagem. Estas viagens são cada vez mais frequentes em minha rotina. Apenas um par de tênis, meia e um short são o suficiente para sair correndo pelas ruas da cidade em que eu estiver. Nem sempre o cansaço físico das viagens deixa que a intensidade do treino seja como gostaríamos, mas consigo cumprir o principal objetivo de lavar a alma e a mente.
Costumo dizer que o mais
interessante das provas de Triathlon é a jornada de treinos. A prova é apenas
uma consolidação do que foi feito.
Cheguei a Florianópolis com dúvidas
sobre minha jornada de preparação, que foi confusa. Levei minha família para
uma semana de férias e aproveitamos juntos a prova e os dias no Resort. Consegui
um serviço de montagem da bicicleta em Florianópolis que foi excelente e deixou
minha jornada mais tranquila. Na véspera fiz um giro rápido para sentir o clima
e garantir que minha companheira de prova estava bem. Entrei na água para
sentir o mar, mas não me senti confortável para nadar naquele dia.
No tão esperado dia do Ironman
70.3, entrei na água, em um dia lindo, com um nascer do sol maravilhoso e uma
vibe que só quem participa sabe. O mar estava agitado. Mas como diria Max
Fercondini, “mar calmo nunca formou bons marinheiros”. No início da natação já
percebi a situação, em que não conseguia enxergar as próximas boias. Mantive a
cabeça no lugar e um ritmo um pouco mais baixo, priorizando fechar aquela parte
da prova. No fim, tive algumas náuseas, mas não comprometeu em nada minha saída
da água. Apreciei cada segundo no mar da praia dos ingleses.
Na transição, mudei um pouco do
meu planejamento nutricional, senti que poderia me fazer bem devido as náuseas.
Reforcei a reposição de sal, com receio de me perder durante o ciclismo.
No percurso de ciclismo,
atravessamos toda a ilha de Florianópolis. Um trajeto espetacular. Pedalei
muito bem, consumi água fornecida no percurso e levei minha suplementação própria,
levando em consideração os aprendizados da primeira prova. A participação dos
workshops prévios e a conversa com triatletas mais experientes se tornou fundamental
para terminar bem esta parte da prova. Fiz uma segunda transição tranquila e
seguimos para a corrida.
Comecei correndo muito bem. Os cinco
primeiros quilômetros foram até melhores que eu estava imaginando. Levei alguns
géis de carboidrato para a parte final da prova. Estava acostumado com eles,
porém, não me fizeram bem naquele momento. No sétimo quilometro, tive uma dor
de barriga intensa, que se repetiu a cada volta da corrida, totalizando três
paradas. As pernas estavam bem, mas a surpresa desta vez veio da parte
gastrointestinal.
Finalizei a prova bem. Feliz com
minha performance e cumprindo o que eu havia previsto, mesmo um pouco acima do
tempo que gostaria, devido as paradas. Aproveitei cada segundo naquele ambiente
e fui ficar com minha família. O cumprimento do desafio fortalece nossa autoconfiança,
e coroa uma jornada. No entanto, fica a certeza de que a rotina de preparação e
treinos que precisa ser gratificante.
Nos próximos dias, me desafiarei
em mais um destes eventos, no Capixaba de Ferro. Me sinto ainda mais preparado
para buscar uma condição ainda melhor, apreciar um novo local e fortalecer
laços de amizades e experiências no Triathlon.
O esporte tem sido uma forma que
encontrei de equilibrar e extravasar. Costumo dizer que o papel de líder é
muito solitário. Ao longo da carreira e até mesmo da vida, em nossa geração,
sempre se falou em se preparar para ser líder. Em uma conversa de mentoria, com
um CEO de uma empresa multinacional, ele me disse “quase todos querem chegar ao
cargo máximo da companhia, mas ninguém tem a menor noção do que passamos, do
tamanho da pressão que absorvemos e do quão solitário é não poder compartilhar
a maior parte das informações que temos. Além de não sabermos quem podemos
confiar verdadeiramente e quem está ali apenas por interesse”. A vida empreendedora,
de fato, é solitária e o esporte ajuda a espairecer, pensar fora da caixa e
distanciar um pouco de situações rotineiras no trabalho. O Triathlon tem me
ajudado muito neste aspecto.
Família e o refúgio da simplicidade do lar é outro ponto de suporte fundamental para nos mantermos de pé. Este será assunto para um texto futuro.
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