Transformando potencial em potência
O mundo corporativo gosta de buscar conceitos de outras áreas da vida para a realidade empresarial. Termos como a resiliência, sinergia, inércia, aceleração ou equilíbrio são comuns nos ambientes empresariais e nas negociações.
Quando avaliamos pessoas, é frequente falarmos de talentos em potencial. O conceito de potencial é importado da física. Na ciência, o potencial está associado à energia potencial por unidade de carga, é uma medida da energia disponível para realizar trabalho em um sistema, normalizada por uma grandeza relevante (carga, massa, etc.). Ou seja, o potencial é uma energia que ainda não se concretizou ou se transformou em algo potente. Para que este potencial seja efetivo, é necessário transformar em potência.
Na física, potência é uma
grandeza que descreve a taxa de transferência de energia ou a taxa de
realização de trabalho em relação ao tempo. Em outras palavras, potência mede
quão rápido a energia é transformada, transferida ou utilizada. Quanto maior a
potência, maior a capacidade de realizar trabalho em um curto intervalo de
tempo. Em nossos lares, os equipamentos de potência alta são aqueles que
costumam ser vilões nas contas de energia, como chuveiro elétrico, ar-condicionado
ou refrigeradores.
Traçando um paralelo entre os
conceitos, o potencial está relacionado à energia disponível em um sistema,
enquanto a potência está relacionada à taxa de uso ou transferência dessa
energia. Em outras palavras, o potencial determina quanta energia pode ser
transformada, enquanto a potência determina quão rápido essa energia é
transformada.
Frequentemente, eu uso o termo
transformar potencial em potência. Quando digo isso, me refiro tanto a
aproveitar oportunidades do mercado, como no desenvolvimento de pessoas.
Mercados em desenvolvimento, como
é o caso da produção de pescados no Brasil, tem um potencial enorme para ser um
grande protagonista na produção de proteína saudável a nível global. Somos um
dos países com maior abundância de águas, temperaturas tropicais favorecem o
crescimento de pescados, nossa fauna é repleta de espécies com potencial
produtivo e somos grandes destaques na produção agrícola mundial gerando uma
abundância de ingredientes para a ração dos peixes. Porém, a desorganização da
cadeia, regulamentações atrasadas, alto custo de capital, falta de credibilidade
nas instituições e falta de engajamento de bons empreendedores colocam em risco
este potencial, que pode, jamais, gerar a potência que tem capacidade.
O mesmo caso acontece com o nosso
país. Há muitos anos escutamos a frase que o Brasil é o país do futuro. Isso
significa que todos identificam o potencial do Brasil em ser uma potência
mundial. São diversos fatores, dentre eles: extensão territorial, localização
geográfica e capacidade de seu povo. Porém, mesmo após o boom populacional, com
décadas de social-democracia no poder e um jogo político infinito, nunca conseguimos
transformar o potencial país do futuro em potência. O dito popular traduz isso
de forma simples com “deixar o bonde passar” ou “cavalo arreado não passa duas
vezes no mesmo lugar”. Aquele que era o país do futuro se tornou o país da
escassez de mão de obra, do estado pesado, dos serviços ruins, sem
infraestrutura e com uma esquizofrenia tributária que espanta até o investidor
mais apetitoso.
Trazendo o olhar para uma visão
mais micro, quem nunca conviveu, na vida profissional, com um talento em
potencial enorme, que tinha tudo para entregar muito resultado no negócio e
crescer na carreira, porém não fazia o mínimo. Falta de comprometimento,
dedicação ou ambição são comuns nestas pessoas que, apesar de uma enorme
capacidade, não conseguem atingir o potencial em suas carreiras.
Transcendendo o mundo
corporativo, temos diversos exemplos de carreiras muito promissoras, que não tiveram
tanta potência, por frustrações que não foram superadas. Diego Armando Maradona
foi um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, ídolo na Argentina,
porém sua carreira foi marcada por controvérsias, incluindo o uso de drogas e
problemas de saúde. Ele enfrentou dificuldades pessoais e profissionais após o
auge de sua carreira. No mesmo caminho, temos o exemplo de Fabio Assunção, que
foi um dos atores mais talentosos e populares nos anos 90 e 2000, que teve sua
carreira prejudicada por problemas com drogas e escândalos pessoais.
Não são apenas as drogas as vilãs
destas histórias. Quantos alunos inteligentes já se viu em sala de aula, que
não se dedicava o mínimo para ir um pouco além. Quantos trabalhadores capazes
de assumir funções superiores não querem ter mais responsabilidade. Quem nunca
presenciou uma cultura de trabalho que não se preocupa com os objetivos do
negócio, apenas com a hora de ir embora. São situações rotineiras em nossa
vida, que escodem alguns bons potenciais que se perderão ao longo do tempo.
É comum termos exemplos, tanto em
grandes proporções, como é o caso do Brasil, empresas de grande e médio porte
ou profissionais isolados, que tem potencial, e não se concretizam como potências.
É importante olharmos para estes exemplos, pois eles também ensinam o caminho a
não seguir. Ter referências positivas, bons exemplos e bons mentores são
fundamentais para direcionar-se para o lado positivo.
Em minha carreira e em meus
negócios, busco direcionar as pessoas que estão a minha volta a conseguir se
capacitar, se preparar e mais que tudo a conseguir entregar resultados consistentes.
Para isso, entendo que a disciplina e o foco na execução são, aliados a um bom
planejamento, ferramentas indispensáveis na jornada de aproveitar ao máximo
cada potencial oportunidade que temos, sejam de negócios ou pessoas.
Ver o impacto de cada
desenvolvimento na vida das pessoas e nas comunidades onde atuamos é o que me
motiva a seguir correndo riscos e buscando novos desafios. Impactar
positivamente e criar uma corrente de construção e desenvolvimento é poderosíssimo.
Não conseguimos fazer isto sozinho e é necessário saber que não serão todos que
estarão dispostos a pagar o preço necessário para o crescimento. Porém, o
resultado é extremamente gratificante e é ele que me faz ir atrás dos meus
sonhos e meus projetos diariamente.
A chegada da nova geração ao
mercado de trabalho, bem como o momento atual de pleno emprego e escassez de oferta
de pessoas para o trabalho, me deixa preocupado. O modus operandi que
vivenciamos, dos jovens, principalmente entre 18 e 25 anos, é assustador.
Confesso que tenho receio muito grande do estrago que pode ser gerado no mundo,
retrocedendo em séculos os avanços que foram arduamente conquistados pelas
gerações anteriores. Porém, este é um tópico para um outro texto, exclusivo a este
assunto.




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