Não julgue o peixe por sua capacidade de subir árvores
Ao longo da vida, os moldes da educação me incomodaram em diversas vezes. O modelo cartesiano da escola, em minha visão, mais afasta as pessoas da cultura e do pensamento crítico que aproxima. Particularmente, eu tinha uma enorme facilidade em exatas, onde quase não estudava e conseguia boas notas. Ao passo que as linguagens eram meus calcanhares de Aquiles. Interpretação de texto (não importa em qual língua) e literatura não faziam algum sentido para mim. Quando me mudei para Belo Horizonte, para o terceiro ano, fiz aula de reforço em redação e fiquei de recuperação em todos os trimestres de literatura, exceto aquele em que o simulado do vestibular contou nota para todas as matérias.
Até meus 17 ou 18 anos, a leitura não era um hábito. Ao contrário, eu dizia que detestava ler. Óbvio, a escola fez de tudo para que eu realmente não gostasse de ler. Livros como “O Cortiço”, “Os Lusíadas”, “Vidas Secas” e “Memórias póstumas de Brás Cubas” tornavam a jornada de leitura cansativa e desgastante. Pior, os livros que eu li, na íntegra, me fizeram ter notas nas disciplinas piores que aqueles que eu estudava apenas a resenha e seus resumos online. De fato, um desincentivo a leitura.
Atualmente, este tipo de leitura
ainda não me apetece. Não consigo entender o que se passa. A linguagem é muito
complexa, mesmo para um leitor assíduo, como eu (atualmente leio a média de 15
a 20 livros no ano). Imagine para um adolescente de 13 ou 14 anos.
Pelo fato de ter dificuldade
nestas disciplinas, quase toda minha vida, dediquei muito mais tempo a elas.
Precisava de um esforço enorme para buscar a nota mínima em História ou
Literatura, nos vestibulares. O conteúdo faz sentido para mim, mas eu não
conseguia performar. Tal fato, me fez ter um grande bloqueio por estes
determinados assuntos e certamente limitou meu desenvolvimento em vários
momentos.
Em todo o tempo, questionei os
professores e acredito que nem eles mesmos estavam preparados para tais
questionamentos. Me lembro de uma passagem, na sétima série, durante uma aula
sobre a Amazônia que comecei a fazer contas para a professora, do porquê
deveríamos desmatar toda a floresta e torna-la produtiva. Nas contas que fiz à
época (meados do ano de 2006), seria o suficiente para colocar cerca de R$2milhões
no bolso de cada cidadão brasileiro. Nem eu mesmo acreditava que aquele era o
melhor caminho, mas sempre fiz este tipo de questionamento, por puro senso
crítico. A professora ficou sem palavras e passou a sensação de ter ficado
tentada ao desmatamento. O fato é: poucos professores estão preparados para um
pensamento que sai um pouco da caixa e questionam o status quo que ela estudou
para lecionar a disciplina.
A boa notícia é que nos dias de hoje,
já temos professores que se posicionam como mediadores de uma discussão em que
todos estão em um mesmo patamar e uns aprendem com os outros. Neste modelo, a
distância reduz e não se cria um “dono da verdade”.
Recentemente, li sobre a vida de
Dom Pedro II. Nada mais que um livro de história. Também li um livro chamado “A
história do Brasil para quem tem pressa”, indicação do Fiemg Jovem. As conexões
que tais leituras geraram fizeram muito sentido para mim. Muito da cultura
brasileira é explicada por tal fato. A adoração ao poder é algo forte até os
dias de hoje, o que se justifica por termos sido a última nação a abolir um
ritual chamado “beija-mão”, uma cerimônia pública em que o povo beijava as mãos
do imperador. Nada disso, porém, era discutido no ensino básico. Ao passo que
as ambições que fizeram os portugueses chegarem ao Brasil nunca foram clareadas
na escola. Do mesmo modo, as oportunidades que o Brasil perdeu com um líder
como Dom Pedro II e não soubemos explorar seu melhor potencial.
Importante ressaltar que todo o
tempo que investimos em nossas dificuldades, poderiam ter sido dedicadas a
disciplinas que desenvolvessem e aprofundassem nossos pontos fortes. Porém,
foram desperdiçadas com situações que não valorizavam o que temos de melhor.
Não sou crítico a disciplinas de ciências humanas ou biológicas, porém o
sistema de ensino como feito nos dias de hoje, gasta muito mais energia
trabalhando pontos fracos que desenvolvendo nossos diferenciais. Literalmente,
este sistema exige que os peixes subam na árvore e os avaliam por tal
capacidade, ao mesmo tempo que julgam macacos por sua capacidade de nadar.
Este sistema reflete nas escolhas
das pessoas, que mesmo ao longo da vida profissional e de suas escolhas de
desenvolvimento, investem em situações que trabalham seus pontos fracos, ao
passo que seria muito mais eficiente aprofundar-se mais em pilares que
sustentam seus pontos fortes. Os PDIs das organizações, em sua maioria, vão
nesta linha e desperdiçam recursos com treinamentos pouco eficientes.
O objetivo deste texto não é
necessariamente criticar o sistema de ensino nacional e tradicional. O foco é
demonstrar que existe um leque de conhecimentos, no universo, muito maiores que
aqueles que a escola te apresentou. Habilidades humanas e sociais, por exemplo,
nunca foram mencionadas neste âmbito. O senso crítico é muito pouco trabalhado
em nossa trajetória. Conexões com mentores e modelos de carreiras distintos nem
se aproximam da realidade das universidades, enquanto ao lado, nas empresas e
universidades internacionais são bastante consolidados.
As próprias universidades, com
seus cursos de 4 ou 5 anos, no formato tradicional são altamente questionáveis.
Particularmente, acredito que uma formação tradicional na universidade é de
extrema importância. Tal período trás amadurecimento e excelentes relações que
geram conexões para toda a vida. Porém, poucas escolas entendem este papel na
formação.
Temas como autoconhecimento não
passam nem perto do ensino tradicional e, em minha visão, deveriam ser a base
de todo o desenvolvimento individual. Cada indivíduo, se conhecendo, seria capaz
de fazer melhores escolhas para sua vida, escolher como alocar seu tempo de capacitação,
vida pessoal e outros fatores que julgar importante. Além disso, cada um seria
capaz de definir a própria trilha de desenvolvimento ao longo da vida, buscando
onde se sente melhor e consegue mais rendimentos de acordo com suas prioridades.
A partir daí, buscaríamos mentores, escolas e outros formatos de conteúdo que
se adequem a nossa realidade.
No mundo que vivemos uma
abundância de informações e recursos, cada vez mais será necessário que
desenvolvamos nosso potencial. A tecnologia virá cada vez mais forte, ágil e
capaz. Os limites não existem quando pensamos na convergência delas. A
combinação da realidade aumentada com metaverso ou mesmo uma mera automação
potencializa, de maneira brutal, a capacidade humana. Para mim, é nítido que a
maior parte da população não vai conseguir entender o que se passa e vai apenas
usufruir das tecnologias. Desta forma, a capacidade destas pessoas vai ficar
cada vez mais limitada, sendo uma boiada que acompanha aquilo que os entendedores
desenvolvem.
Fico ainda mais abismado, quando
percebemos que nossa capacidade de formar pessoas nas áreas de tecnologia e
computação é infinitamente inferior a advogados, por exemplo. Não desmerecendo
o direito, mas nossa capacidade de entrega na economia real e principalmente no
mundo digital fica cada vez mais limitada.
O cenário que vivemos evidencia
ainda mais o papel da iniciativa privada, principalmente das companhias que almejam
prosperar. Para conseguir evoluir neste cenário, as empresas precisam iniciar
pela educação de seus colaboradores. Desenvolver talentos dentro de casa,
buscando as competências que são carentes alinhadas aos valores que a
organização possui.
Em uma posição antagônica, vemos órgãos
reguladores e instituições governamentais caminhando em uma direção oposta. Pouca
abertura a tecnologia e baixíssima adesão a eficiência moderna. Apesar de
termos alguns lampejos com o PIX e assinatura digital, a existência de cartórios,
a dependências deste ator na economia e a grande procura por tais concursos públicos,
demonstram que, como nação, ainda temos um longo caminho a percorrer. Me
desculpem aqueles que atuam em cartório ou o almejam, mas a necessidade de um
selo para garantir uma assinatura é um exemplo da escassez de confiança em
nossa sociedade. No entanto, com os salários e rentabilidade oferecidas,
entendo aqueles que almejam tal carreira. Mesmo não concordando.
Por que não concordo? Pelo simples
fato de que a tão mencionada desigualdade é fortalecida por fatos como este.
Burocracias que são criadas, pela descrença das instituições na honestidade das
pessoas. Este, porém, é assunto para outro texto.
O fato é que por onde vamos e
falamos com empreendedores, todos reclamam da escassez de mão de obra. Do norte
ao sul do país, temos diversas iniciativas que demandam pessoas que estão dispostas
a crescer e se desenvolver. É perceptível que a educação básica que provemos
hoje é incapaz de prover minimamente o básico. Desta forma, acredito que as
empresas que almejarem crescer e se desenvolver precisarão, cada vez mais,
priorizar o desenvolvimento de pessoas. Tal desenvolvimento deveria começar na
base, com o autoconhecimento, para então dar a liberdade a cada um de
desenvolver a própria trilha, colocando os peixes na água e cada macaco com seu
galho.
A grande questão que fica é: e as
escolas? Como se adaptarão nesta direção? Elas existirão no longo prazo? Ainda
é cedo para qualquer resposta objetiva, mas vale a reflexão.
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