Mordomias corporativas e o ego executivo
O ego e a necessidade de holofotes é um dos grandes vilões das culturas empresariais. Recorrentemente as pesquisas de opinião demonstram que o funcionário “puxa-saco” é o mais odiado pelos colegas de trabalho e muitas vezes pelos líderes. Apesar de que, muitos líderes gostam deste perfil, pois incham o ego deles.
No Brasil, esta prática é ainda
mais forte que em outros lugares do mundo. As culturas europeias e americana,
em geral, são mais diretas ao ponto, mais pragmáticos. Ao passo que o
brasileiro é mais político e prolixo. Em especial o mineiro, na realidade que estou
inserido agora, tem uma característica ainda mais forte neste aspecto. Sou
mineiro com muito orgulho, tenho muita vontade de ajudar este estado a prosperar
e ser mais protagonista dentro do país, porém esta é uma realidade que
precisamos conviver e aprender a tirar o melhor dela.
É comum percebermos diferenças dentro
das empresas que criam um status para posições hierarquicamente superiores e
marquem aquelas funções. Seja um computador mais compacto ou potente, uma
cadeira mais luxuosa, uma sala exclusiva, a maior parte das empresas ainda criam
certos privilégios para alimentar o ego das pessoas que ocupam cargos
superiores.
A política brasileira é um
exemplo disso. Em visita ao ministério da agricultura, em Brasilia, havia garçons,
secretárias e uma série de regalias para o superintendente que falávamos. O mesmo
acontece, certamente, com os deputados, senadores e outros cargos. O atual
governador de Minas Gerais, Romeu Zema, tornou público estes números, com mais
de 20 mordomos para um governador. As manifestações do atual presidente, Lula,
em relação ao palácio reforçam esta prática como algo intrínseco ao cargo. Tal
cultura foi criada no país desde o tempo do império. Mudar esta situação não
vai ser algo natural e exigirá muita cobrança popular.
O Brasil foi o último país a romper
com uma prática que foi comum no século XVII, o beija-mãos. Até o século XIX, ainda
existia um momento em que o imperador saía a rua para que a população pudesse
tocá-lo e beijar suas mãos. Uma idolatria digna de santidade que, se fosse nos
dias de hoje, certamente teria mais mordidas que beijo nas mãos.
O modelo imperial de criar
grandes símbolos de riqueza para demonstrar a força do rei ou do imperador é um
exemplo do que continua acontecendo nas organizações. Naquela conjuntura, em vários
momentos, a força bruta foi utilizada para conquistar poder. Nos dias de hoje, o
jogo político ainda exerce uma grande importância, mas já passamos da fase da
força. Esperamos que em algum momento futuro, o mérito tenha mais força que a
política, em geral e consigamos ter oportunidades para aqueles que melhor
entregarem resultados e se destacarem.
As cadeiras confortáveis e
luxuosas, as salas exclusivas e os computadores mais modernos, nas empresas,
são equivalentes, a meu ver, ao palácio do império e aos símbolos que cada nação
utilizou para demonstrar poder. Muitos executivos não aceitam estar no mesmo
patamar que a equipe, em questões de estrutura, e tem a necessidade de utilizar
destes meios tanto para inflar o próprio ego quanto para ter uma demonstração
explícita de poder.
É curioso que o mundo tenha,
desde a antiguidade até os dias de hoje, mantido e fortalecido tais situações.
No século I, tivemos, talvez, a maior demonstração de liderança que o mundo já
vivenciou, a existência de Jesus Cristo. Ele é seguido por muitos, porém, na vida
profissional seu exemplo não é replicado com frequência, apesar de termos casos
semelhantes nas empresas, com pouco holofote.
Jesus viveu em um período do império
romano, que é amplamente estudado. Ainda assim, muitas pessoas contestam a
realidade dos fatos documentados a época. Ele foi considerado o rei dos judeus,
em um período em que Júlio Cesar concentrava o poder do estado e religioso. A
morte era vista como uma punição de Deus àqueles que descumpriam as escrituras.
Não vou entrar no aspecto histórico e teológico, por não ser meu ponto forte e
não tenho conhecimento suficiente para tal. Mas Cristo incomodou os poderosos,
por criar um poder paralelo silencioso e sem nenhum ego. Ao ponto de ser
crucificado com os dizeres de “Rei dos Judeus”, para servir de exemplo a
qualquer potencial liderança que quisesse ser tão forte quanto o imperador romano.
Reflita: em sua experiência do
mundo corporativo, você já viu alguém ser crucificado por ter mais poder que
aqueles que, na teoria detém o poder?
O exemplo, colocando o aspecto
religioso a parte, fica ainda mais profundo quando vemos que o grande líder se
colocou de joelhos diante de seus liderados em diversas ocasiões. A vulnerabilidade
foi, quem sabe, a grande virtude deste homem, que olhou igualmente a todos e
buscou comunicar e simplificar seus ensinamentos para que todos pudessem entender.
As parábolas são simplificações de lições complexas que Jesus fazia para que as
pessoas, sem instrução, conseguissem entender seus recados.
Em sua realidade corporativa,
quantas vezes já se saiu de uma reunião entendendo nada do que havia se passado?
Quantas vezes você já viu o chefe falando difícil para tentar demonstrar
superioridade? Será que estas pessoas estão no sentido correto?
Diversas empresas criam status
luxuosos para passar a mensagem a seus colaboradores e consumidores. São jatos
particulares, hotéis de luxo, camarotes em eventos e jantares refinados que são
utilizados para atrair a fazer as pessoas sonharem em crescer. Tal situação faz
com que a pessoa viva uma realidade dentro da empresa diferente daquela que tem
acesso na vida pessoal. Muitos profissionais (principalmente no mercado
financeiro, no direito e áreas afins) pagam jantares e almoços de milhares de
reais, para passar uma imagem e alimentar um ego no segmento.
Antagonicamente, Jesus convidava
os apóstolos para comer o básico e ouvir sua palavra que os cativava. Ele vivia
uma vida simples, da forma em que não precisava demonstrar nada diferente do
que realmente é.
Particularmente, sou partidário da
simplicidade e do corte de custos. Penso que as companhias deveriam focar em
ter um ambiente confortável que dê condições das pessoas exercerem o trabalho,
sem excessos. Acredito que o dinheiro em caixa e no coração do negócio tende a fazer
com que a empresa cresça e gere mais oportunidades para as pessoas que estão com
ela. O foco é desenvolver e gerar oportunidades para mudar a vida das pessoas.
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