Minha jornada em terras francesas

 

O período em que vivi na França foi muito rico, em diversos aspectos. Já se passaram 6 anos (por incrível que pareça) e ainda tenho muitas experiências vivas na memória. Talvez tenha sido o momento em que melhor consegui equilibrar meu bem-estar com minhas obrigações e, apesar de todas as dificuldades, eu tinha muita confiança que tudo daria certo.

Começando do começo: eu nunca tive vontade ou ambição de fazer um programa de intercâmbio. Não fazia parte da minha realidade, em Barbacena. Pensar em ir morar no exterior não fazia parte do meu ciclo, não enxergava como aquela experiência poderia agregar para mim. Neste caso, eu claramente era um incompetente inconsciente, na fase 1 desta evolução (explico esta teoria em breve). Eu via amigos e familiares indo morar fora e chegava a criticar. Ignorância minha. Quando iniciei a universidade, diversos colegas de turma já haviam vivenciado uma ou duas vezes aquela experiência e comecei a me sentir “inferiorizado”. Passei ao estágio de incompetente consciente, principalmente quando percebia que meus conhecimentos internacionais e minhas habilidades em línguas estrangeiras não estavam na média do profissional que eu almejava ser.


Influenciado pelo meio, vi muitos colegas partindo no programa Ciência sem Fronteiras. Ouvia muitas críticas e muitos elogios (não é objetivo aqui entrar neste mérito). Em uma conversa no café, com até então um conhecido veterano, Ricardo Leão, ele comentou da oportunidade do BRAFITEC, onde poderíamos, inclusive, fazer um mestrado e duplo diploma. Naquele momento, eu mal sabia que estaria com um dos meus grandes companheiros daquela jornada e um dos grandes amigos que a vida me deu.


O programa exigia entrevistas, análise de currículo e dois pré-requisitos: falar francês e saber programar. Tratava-se de um programa específico para uma área técnica, a Pesquisa Operacional. Era uma área pela qual eu me interessava, entendia que tinha um grande potencial de gerar boas soluções, porém não conseguia me dedicar o suficiente, porque me comprometia com diversas frentes ao mesmo tempo e vinha estagiando e estudando outras áreas com mais afinco. Percebi que aquela poderia ser uma boa oportunidade de focar naquele aprendizado. Só havia um problema: eu não falava francês, nem sabia programar. Mesmo assim, me inscrevi. Passei, não houve candidatos suficientes para todas as vagas. O professor me convidou a participar, porém recomendou eu não ir, porque seria muito difícil suportar. Decidi encarar. O que poderia acontecer na pior das hipóteses? Desistir e voltar. Para onde? O mesmo lugar.

Não posso dizer que foi um período fácil. Foi muita dedicação e estudo. Eu tinha uma confiança e um apoio enorme da rede que participava do programa junto comigo. Claramente eu era o que tinha menor aptidão na língua e na área técnica. Mas eu sabia das minhas limitações e ajustei minhas expectativas para elas. Identifiquei as disciplinas que eu utilizaria para compensar e quais eu buscaria o necessário para a aprovação. Eu me comparava com os times de futebol, do segundo escalão, quando jogam contra times grandes. Eles se organizam defensivamente, buscam errar o mínimo e serem eficazes nas poucas oportunidades de gol que tem. Assim eu fazia.

Em paralelo a vida acadêmica intensa, a experiência cultural foi enorme. Fiz grandes amizades e explorei diversos países, conhecendo a cultura através das pessoas. Foi um período de amadurecimento muito grande. Percebi que nunca estaremos satisfeitos com o todo no momento em que conheci uma finlandesa que reclamava muito do sistema de ensino no país, o qual é considerado o melhor do mundo. Ou mesmo as chinesas que se mudavam das pequenas cidades de 2milhões de habitantes para buscar oportunidades em grandes centros. Tudo são referências, mas ficou muito evidente que a América Latina é um mundo de oportunidades, muito pouco conhecido pelo resto do mundo.

É importante destacar, que mesmo sendo uma excelente oportunidade, a vida é feita de escolhas. Nossas escolhas guiam nossos caminhos. Escolher estar em um determinado local, significa desistir de estar em outro, de viver outras experiências. No caso, estar distante da família, dos amigos de infância e do clube de coração. Para isso, o equilíbrio é fundamental, definindo os objetivos, prazos e prioridades em nossas vidas.

 


Ao fim do primeiro ano, eu estava mais adaptado. Consegui fluir mais no francês e fazer amizades. Aproveitamos o verão europeu com seus dias longos e ralamos muito nos projetos de pesquisa. Foi um período muito intenso. As atividades físicas diárias foram um grande escape. Faça neve ou faça sol, eu estava na rua ao fim dos dias de 10 horas de aulas, para espairecer um pouco. As cozinhas compartilhadas do dormitório eram aulas de cultura, entre africanos, asiáticos, europeus e latinos. Jantares coletivos e soirées em quartos de 9m² nos mostravam que não precisamos de muito para sermos felizes.

Clermont-Ferrand foi uma cidade que me acolheu desde o primeiro dia. Bela cidade universitária, no centro da França, é a “capital” do rugby. Um esporte pouco popular no Brasil, e forte na França. O ASM é um time forte, que chegou em inúmeras finais em sequência e perdeu quase todas. No período em que morei lá, assistimos três finais na praça da cidade (perdemos todas). Foram tardes marcantes, de muita alegria, apesar dos resultados negativos.


Depois do primeiro ano, optei por seguir e fazer o mestrado junto com a graduação. Estávamos mais habituados. O ciclo mudou, alguns amigos retornaram a seus países, outros chegaram. Conhecia melhor a cidade, a rotina e conseguimos aprender ainda mais. Em certo momento, a ansiedade do futuro bateu. Vieram entrevistas de estágio. Em certo momento avancei conversas com a Danone, para ir para as Filipinas. Seria um outro desafio, talvez ainda maior, que nunca imaginei. Naquele momento, o garoto que não tinha intenção de morar fora do Brasil enxergava um pouco mais longe, percebia o impacto daquela experiência em nossas vidas. Eu queria morar na Asia, conhecer outra cultura totalmente diferente. Porém, um terremoto naquele país cancelou todas as vagas. Acabei me mudando para Paris e conhecendo mais profundamente uma das cidades mais lindas do mundo.

Em Paris, dividi apartamento com dois franceses e nos últimos dois meses com uma Australiana. Foi uma experiência diferente. Imergi ainda mais na cultura do país. Fiz amizades no trabalho, conheci pessoas diferentes. Fiquei mais sozinho e me reconectei comigo mesmo. Aprendi a estar sozinho.

No fim do estágio, tive a oportunidade de ser contratado pela empresa em que trabalhava. Mas apesar de completamente adaptado, eu sentia falta do calor humano do brasileiro, da minha cultura. Na França, eu seria eternamente um estrangeiro. Decidi, então, voltar para o Brasil.

Voltei completamente diferente. Querendo conhecer mais nosso país, mais nossa cultura. O Brasil é um continente, com inúmeras culturas e um mundo de oportunidades. Temos poucos que tem condições de enxergar de maneira macro e entender a dinâmica de um país tão complexo. Por isso, vislumbro um futuro extremamente promissor. Nossa cultura, criticada por nós mesmos, é riquíssima. Temos habilidades raras, com valor altíssimo. Temos recursos e riquezas capazes de gerar abrir portas. Precisamos aproveitar.

O garoto que não tinha intenção de sair das sombras das montanhas das Minas Gerais, subiu ao cume e passou a enxergar mais longe, ambicionar voos mais altos. Entre 2015 e 2020, morei em seis cidades diferentes, conheci diversos lugares tanto a passeio quanto a trabalho. Cada um deles me fez enxergar um pouco mais distante e entender um pouco melhor este mundo tão complexo.

Apesar destas experiências terem sido individual, a riqueza vem dos relacionamentos que desenvolvemos e das oportunidades que as pessoas ao nosso redor nos proporcionam. Como uma frase atribuída a Isaac Newton, “se hoje podemos enxergar mais longe, é por estarmos apoiados nos ombros de gigantes”. Agradeço a cada gigante que passou nesta jornada.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Completa-se 1 ano de uma jornada promissora

Transformando potencial em potência

Não julgue o peixe por sua capacidade de subir árvores