Erro: a base do desenvolvimento

 A casa de minha avó sempre foi um grande ponto de encontro da minha família. Reunidos lá, semanalmente, eu vivia momentos inesquecíveis e experiências únicas junto das pessoas que mais amo. Em um destes dias, enquanto proseava com meus primos, vi uma das primas (criança nesta época) brincando com a porta. Percebendo uma situação de risco, eu a disse “Cuidado, você pode apertar o seu dedo! ”. Logo após o alerta, seu pai, o qual muito admiro devido a educação que ele consegue dar para suas filhas retrucou: “Não. Deixe ela apertar o dedo, pois assim ela irá aprender e passará a tomar cuidado”. Neste momento comecei a refletir e a me tornar um grande defensor dos erros.

Realmente, ele estava certo. Quando alguém nos alerta sobre um perigo ou a uma atitude errada, prestamos atenção naquele momento (ou nem prestamos) e normalmente não guardamos aquele aprendizado para situações futuras. Já quando erramos e sofremos as consequências destes erros, guardamos na memória de uma forma que nos leva aprender para não errar nunca mais. No exemplo que citei acima, caso o pai da minha priminha tivesse dito a ela para parar de brincar com a porta, ele a afastaria do perigo naquele momento, mas não conseguiria entender e se prevenir quando ele não estivesse perto chamando sua atenção. Já se ela apertasse o dedo, de fato, teria uma dor momentânea, mas faria com que ela entendesse o risco de brincar com a porta e passaria a tomar cuidado dali para a frente.

Neste aspecto, costumamos evitar o desconforto e acabamos evitando o desenvolvimento. Porque como é amplamente dito, qualquer desenvolvimento gera desconforto. Os bebês, por exemplo, tinham aqueles cueiros, feitos para acalmá-los. O racional por trás dos cueiros é que ele lembra o útero da mãe, com uma posição a qual o bebê se sente confortável e normalmente se acalma. Porém, aquela situação de conforto são, de fato boas para os bebês? Ou seriam boas para os pais? Uma vez que os bebês em novas posições, vão experimentar novas sensações e desenvolver seus instintos.

Esta é a essência de um erro. Quando erramos, certamente sofremos suas consequências e aprendemos. Claro, muitas vezes aprendemos apenas o que não fazer, ou comportamentos que podemos ter de uma maneira melhor, mas certamente são os sucessivos erros que constroem uma vitória. Cada errinho pequeno que melhoramos, aprendemos para o futuro como fazer melhor para as próximas situações, e se conseguimos ter persistência para continuar tentando, certamente superamos. Porque os erros nos fazem buscar novos caminhos, procurar alternativas, pensar possibilidades que, certamente, nos serão úteis mais adiante.

Concordo que errar nunca será algo satisfatório. Porém a frustração e o desconforto gerado pelo erro fixa a lição na memória. Portanto, se você trabalha em equipe, deixe os seus companheiros andarem com as próprias pernas, e como dizemos popularmente, baterem cabeça com algumas situações, pois isto lhes trará um aprendizado ao qual eles não seriam capazes de adquirir caso entreguemos tudo “mastigado” para eles.

Muitas vezes podemos pensar que eles não serão capazes de resolver tal problema de maneira independente, e acabamos subestimando suas capacidades de resolução de problemas. Porém, ao facilitarmos a resolução estamos dificultando o aprendizado que estas pessoas teriam e consequentemente as tornando menos capazes que poderiam estar naqueles momentos. Não digo que devemos negar ajuda. Dar diretrizes e apoiar nas dificuldades é sempre importante, mas sempre deixando com que a própria pessoa execute e chegue as suas conclusões.

Quando falo deste assunto, costumo citar um exemplo simples, em que todos nós já vivemos. Ao estudarmos para uma prova, nos preparamos incansavelmente para todas as possibilidades de questões que o professor possa colocar. Porém, uma ou duas semanas após esta prova já não lembramos mais exatamente como fazer o que foi pedido, e é necessário fazermos uma revisão se precisamos aplicar algum conteúdo. Porém, se você comete algum erro, mesmo que bobo, e compreende aquele erro, dificilmente você o cometerá novamente. Podem se passar anos, que aquele erro ficará na sua cabeça, enquanto os acertos obtidos serão lembrados apenas através de notas e não mais do conteúdo. Mesmo que tenha sido você o único merecedor daquela nota.

Por isso, eu sou um grande crítico dos cases de sucesso, apesar de estudá-los constantemente. A Amazon, por exemplo, inseriu em sua cultura a apresentação dos erros publicamente, recompensando os melhores com tenis da nike. Obviamente, não é implementar um ritual isoladamente que vai consegui-lo promover a cultura do erro, e sim, uma série de fatores que os compõem.

Concordo plenamente que os exemplos bem-sucedidos que temos nos motivam e nos mostram, muitas vezes, alternativas bastante interessantes que podemos utilizar no nosso dia a dia ou em certas dificuldades. Porém, estes cases não apresentam a luta e a sequência de erros que foram superadas. Eles tendem a simplificar muito tudo o que foi vivido e nos deixa a impressão de que tudo aquilo foi fácil. Então, se eu não consigo é porque eu sou incompetente. Não! Estou certo que para cada história de sucesso apresentado neste mundo há, no mínimo, algumas dezenas de histórias de insucesso que poderiam ser apresentados também. E em cada um destes insucessos adquiriu-se experiência e conhecimento que nos torna aptos a chegar ao sucesso posteriormente.

Existem também vários casos em que os erros acontecem e o resultado desta falha é surpreendente e pode superar as expectativas. Um exemplo extremamente conhecido neste caso é do surgimento da penicilina. O pesquisador Alexander Fleming deixou algumas placas com culturas de microrganismos em seu laboratório ao sair de férias. Ao retornar, percebeu que as culturas haviam sido contaminadas por um fungo, o que havia estragado suas culturas, teoricamente. Porém, ao analisar as culturas contaminadas ele percebeu que na região onde estes fungos estavam presentes, as bactérias não haviam sobrevivido, portanto não havia mais bactérias. A partir de então, descobriram este fungo do gênero Penicillium que produzia uma substância chamada penicilina, com efeito bactericida e poderia ser usado como remédio em muitos casos. Neste caso, o erro cometido por Fleming mudou a história da humanidade.

Não quero dizer com estas palavras que a partir de agora devemos começar a errar mais ou forçar erros. Definitivamente não. Precisamos estar sempre na busca incansável por fazer da maneira correta, mas a grande lição que eu quero que entendamos é que, caso sua tentativa de acertar não tenha dado certo, e você tenha cometido um erro, não encare isto como o fim do mundo. Levante a cabeça, entenda suas falhas e trabalhe para melhorá-las. Nestes momentos de nossas vidas, precisamos buscar ser como as ostras e produzir pérolas diante das dificuldades. Pois uma ostra que não foi ferida, não produz pérolas. As pérolas são resultantes de alguma substância indesejada ou algum ferimento que as ostras tiveram. Quando alguma destas substâncias entram na parte interna da concha, ela envolve esta impureza com camadas e mais camadas a fim de proteger seu próprio corpo. O resultado disso será uma linda pérola, que representa uma cicatriz no corpo da ostra. O que para a ostra é lembrança de uma dor, de uma impureza, para nós é uma joia. E as ostras mais valiosas são aquelas que possuem mais pérolas. Então, quando você estiver em um momento de frustração ou desconforto por um erro, envolva-o de coisas boas e faça uma pérola. O resultado de cada desconforto será uma joia em sua vida.

Mas para conseguirmos fazer pérolas, não basta apenas termos o ferimento, é necessário trabalharmos em busca da cura e em seguida superá-lo. Para isso, precisamos ser persistentes. O dicionário define persistência como “ qualidade do que dura; característica do vinho cujo aroma persiste durante um tempo, ainda que a garrafa esteja aberta”. Este conceito nos mostra que mesmo nas condições mais adversas (no caso de um vinho em que a garrafa está aberta sem estar sendo consumida), nossas características boas (o cheiro) ainda permanecem. Então, podemos entender a persistência como aproveitar o que temos de melhor para tentar novamente (qualidade do que dura).

Em paralelo ao assunto persistência é importante deixar bem claro que o conceito de insistente está bem distante do conceito de persistente. Insistente é aquele que tenta várias vezes da mesma forma, que fica literalmente “dando murro em ponta de faca”, tentando refazer da mesma maneira e esperando resultados diferentes. O persistente não, persistente é aquele que aproveita o que teve de bom para modificar e fazer ainda melhor da vez seguinte, superando os pontos negativos.

Em tudo isso, é importante que possamos compreender que os erros estimulam nossa mente e nos faz capazes de olhar as coisas de outra forma. Aproveitando esta nova forma de olhar, mantemos os pontos positivos do que foi feito e buscamos alterar aquilo que julgamos estar errado, fazendo de maneira diferente para procurarmos não insistir nos mesmos erros e sim persistir na busca dos resultados. Os erros são naturais de nossa vida. Precisamos encará-los com mais naturalidade e muitas vezes estimular as pessoas para que elas possam tentar de forma independente, onde elas irão errar e adquirir experiência e aprendizado. Blindarmos as pessoas que gostamos ou que julgamos capazes nunca será uma boa alternativa.

No mundo existem erros por toda parte e nem sempre eles interferem em nossas vidas. A ilusão de ótica é um exemplo disso. Obviamente ela pode causar alguns danos, por confundirmos a realidade através do que enxergamos, porém precisamos compreender que nem sempre o que estamos vendo é uma correspondência exata da realidade e agirmos da maneira necessária para convivermos dentro do que realmente existe e não do que imaginamos ou que nossa cabeça cria. O que vemos é apenas uma perspectiva do que é a realidade.

A melhor maneira para conseguirmos superar todos estes erros, além de termos persistência, precisamos ter método. Não quero dizer que precisamos ser metódicos por isso (falaremos sobre isso em outro momento), mas sim de buscar avaliar as situações de forma racional e inteligente. Nunca podemos esquecer que a inteligência é a característica que nos diferencia dos outros animais. Por exemplo, o método científico é uma maneira extremamente eficaz de olharmos para os erros e tentarmos resolvê-los, criando uma hipótese, testando e caso o teste da hipótese seja positivo, armazenamos aquele conhecimento, senão, testaremos outras hipóteses. A imagem abaixo ilustra o pensamento do método científico que pode nos auxiliar no aprendizado com os erros e na resolução de problemas causados pelos mesmos.



Como disse anteriormente, o objetivo deste tópico não é de incentivar os erros, mas sim de mostrar que os mesmos podem ser vistos como aprendizado por nós e não apenas como derrotas. O sucesso é composto por vitórias e derrotas que juntos formam um campeão. Obviamente, temos erros em nossas vidas que são irreversíveis, nos quais não poderemos repará-los. Neste caso, porém, precisamos ser fortes e aprender a assumir as consequências e trabalhar para potencializar os pontos positivos.

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