A ignorância coletiva criada pela Hiperconectividade

Em um novo mundo hiperconectado, o acesso a informação é quase irrestrito. Somos capazes de acessar conteúdos em grandes volumes, em diversas dimensões. O limite é nosso interesse. O que nos quisermos aprofundar, basta ir atrás que conseguimos nos capacitar, entender e quem sabe nos conectarmos com experts do assunto. As possibilidades são inúmeras e abundantes.



Acontece que vivemos um dilema do interesse das pessoas. Os mesmos que tem possibilidades "ilimitadas", são aqueles que leem apenas manchetes e julgam ter absorvido a mensagem. Este fenômeno faz com que o nível de conhecimento seja extremamente raso e a percepção do consumidor deste conteúdo é de expert. A consequência disso é a incapacidade de senso crítico, disseminação de Fake News e excesso de julgamento do ponto de vista dos demais (uma vez que não se consegue ter contexto, empatia e nem abrangência de conhecimento para entender o aspecto do outro).

Neste sentido, nos deparamos com um fenômeno social de polarização, multiplicação de ideias (bandeiras) superficiais com baixíssimo conhecimento de causa e incapacidade de chegar a propostas estruturadas para desenvolvimento. O debate e a discussão de ideias perdeu o sentido e não consegue agregar conhecimento. Quem perde com isso somos todos nós. Ninguém é dono da verdade, nem da própria verdade, quiçá da verdade do outro, o qual não conseguimos ser minimamente empáticos.

O filósofo Mário Sergio Cortella conta uma passagem interessante: "Dois homens se encontram. Cada um possui um pão. Se eles decidem trocar o pão, ao final cada um vai embora com um pão. Se dois homens se encontram, cada um com uma ideia, e decidem trocar ideias, cada um sai com pelo menos duas ideias". A falta de profundidade é uma realidade desta sociedade hiperconectada e hiperacelerada. Poucos são capazes de colocar o outro a frente de si mesmo. Nossas agendas são prioridade máxima em nossos mundos a ponto de nos tornarmos refém dos compromissos que assumimos e raramente conseguimos dizer não.

Compromissos assumidos com os outros entram em nossa agenda irrestritamente e somos incapazes de assumir compromisso com nós mesmos. Dedicar tempo para si próprio é algo muitas vezes impensável. Definimos meta de ler vinte ou trinta livros no ano e não conseguimos usar o período de leitura para relaxar ou refletir. Optamos por aplicativos que resumem os livros, como 12 minutos, porque nosso tempo é curto demais para desprender lendo. O podcast está em velocidade 1,5x para que nosso pensamento esteja a mil por hora.

Muito conteúdo absorvido de maneira rasa e sem gerar os questionamentos necessários. Milhares de rótulos da realidade das pessoas, sem jamais ir próximo, entender, de fato a realidade. Quantos experts em agrotóxicos existem, sem nunca ter ido a uma fazenda produtora de frutas? Quantos defensores dos animais não sabem os princípios do bem-estar animal? 

Nós temos a tendência de projetar nossas vontades ou necessidades no outro, ao invés de entender de fato o que é melhor para ele. Isso acontece com os filhos, quando os bebês choram, nos incomodamos e queremos cessar o choro incansavelmente, usa-se muitos artifícios que fazem mal ao próprio bebê porque não podemos dar atenção naquele instante. Outro exemplo é com animais de estimação, damos o carinho e conforto que nós, humanos, queremos ou gostamos, sem saber que aquele não é necessariamente o hábito natural do animal. 

Como é da essência, poucos leitores chegarão ao final deste texto. Porém, como disse o filósofo Pierre Lévi "desde o momento em que há linguagem, há mentira e manipulação" e aqueles que dominam as ferramentas estão cada vez mais hábeis a manipular as massas através da falta de profundidade e senso crítico das pessoas (haja visto o volume de Fake News). Desta forma, a inteligência coletiva que a democratização da informação poderia gerar está, na prática, está proliferando a ignorância coletiva.


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