Polarização: o caminho oposto a evolução

 Estamos nos aproximando das eleições presidenciáveis. Certamente, uma das eleições mais polarizadas que este país já teve. Vivemos um momento em que não se consegue discutir ideias capazes de direcionar nosso país e consome-se a maior parte do tempo com discussões pontuais que não agregam na construção que precisamos ter. Não há um projeto de país, apenas existem projetos de poder.


Recentemente, mudei o perfil de minhas leituras e dos conteúdos que consumo. Normalmente, estou completamente focado em negócios, estudando cases de sucesso, insucesso, aprofundando algumas histórias e me motivando a construir a minha. Há algum tempo, minha reflexão pessoal me fez chegar à conclusão que eu não possuía hobbies e o triathlon entrou na minha vida de maneira intensa, me fazendo consumir um pouco de conteúdo para aprender mais sobre o esporte. Influenciado pela Fundação Dom Cabral, decidi me envolver na música e tenho estudado flauta, alguns minutos ao dia (tem sido uma experiência incrível, apesar de claramente não ser meu dom natural). Ainda nas influências do MBA em minha vida, tivemos uma disciplina que nos levou a Ouro Preto, uma cidade a qual eu conhecia, porém com outros olhos (algumas visitas também universitárias, mas um outro lado da vida acadêmica, as festas). A disciplina foi humanidades e gestão contemporânea. Só pelo nome, eu já tinha preconceito (humanas nunca foi meu ponto forte). Mas fui surpreendido.

Ministrada pelo professor Ricardo Carvalho a disciplina foi bastante impactante na minha interpretação do ambiente corporativo. Percebi que a maneira como a sociedade se organiza vem mudando, o que a própria arte demonstra a evolução disso. Porém, a essência da necessidade humana continua muito próxima do que era. Apesar da evolução, inclusive do nosso cérebro, das tecnologias e do mundo como um todo, nossa capacidade de assimilar tudo continua pequena. Alguns exemplos demonstram que a essência continua a mesma, mudando o ambiente em que ela se apresenta.


No século XVIII, vivemos o período do absolutismo, em que o rei tinha todo o poder dentro daquela nação e todos “baixavam a cabeça” para tudo que ele dizia. Nas empresas atuais, o comando e controle dos chefes não seriam tão absolutos quanto os reis do século XVIII? O que discutimos em liderança, questionando o microgerenciamento, não seriam um princípio de iluminismo corporativo? Uma vez que algumas companhias, como a França antigamente, começaram a destituir este reino, talvez ocorram outras revoltas “mundo afora”? como o exemplo da Inconfidência mineira... Este seria o caso do movimento, tão comentado, “great resignation”?

Estas reflexões me fizeram buscar um tipo de conteúdo diferente. Decidi ler sobre a história do Brasil, começando por Don Pedro II, herdeiro do trono do Brasil e considerado um dos maiores intelectuais de sua época. Estudei também um pouco sobre a escravidão no Brasil e no mundo, que aconteceram em momentos coincidentes e refletem na nossa cultura até hoje.

O segundo imperador brasileiro manifestou em cartas, no fim do seu reinado, o sonho de ter sido um presidente da república, não um imperador. O fato pode ser questionado por alguns historiadores a respeito da sua sinceridade nestas palavras, mas os próprios atos de D. Pedro II demonstram claramente isso. O fato de viajar pelo mundo como um burguês e não querer ser recebido com todos os tapetes vermelhos que um chefe de estado teria é um exemplo disso. Além do fato que ele manteve, em todos os seus anos de governo, o valor de despesas fixas para a manutenção da corte imperial estável (sem nenhuma inflação). Gastos que se atualizados, seriam uma fração (cerca de 30%) do que é gasto pelo gabinete da presidência da república. Não podemos usar como base a atual máquina pública, uma vez que temos o congresso, senado e judiciário mais caros do mundo. Mas neste aspecto, o questionamento do iluminismo, a respeito dos gastos excessivos das cortes, não deveria voltar? Ou o melhor seria voltarmos a uma monarquia?



D. Pedro II mencionou diversas vezes as fraudes nas eleições, que alguns acreditavam que eram desconhecidas por ele. Porém menciona que enquanto não houvéssemos eleições seguras, não haveria progresso. Estes fatos mencionados, apenas ilustram que um líder, por melhor que ele seja, sozinho, não consegue grandes impactos. Este é um cenário que continuamos vivendo em nosso país, uma enorme escassez de liderança, que provoca um cenário eleitoreiro catastrófico, como o atual.

O Brasil vivia um período escravagista. Nos meus estudos, percebi que a realidade da escravidão brasileira, claramente, não foi como alguns professores de história pintam. Sem dúvida, foi um grande entrave no desenvolvimento do nosso país, mas por outras razões. Por que digo que não era como mencionam os professores? Em algum momento da sua vida, você já ouviu falar que, no Brasil, havia escravos que eram donos de escravos? Sim, existiam, mas a escola não conta. Já ouviu alguma menção de pessoas livres venderem a liberdade para se tornar escravos de alguém? Também aconteceu e não estão nos livros didáticos. Então pergunto, por que estas pessoas fariam isso? Por mais que apenas o fato de considerarmos uma pessoa como um ativo (posse de outra) seja um absurdo, nem todos os escravos viviam sendo chicoteados e submissos. Caso isso fosse verdade, não haveriam os conhecidos quilombos (alguém já teria ido reescravizá-los). É fato que eles foram privados de educação, que continua sendo um problema do país. Mas meu questionamento é: por que um escravo com algum dinheiro preferiria comprar outro escravo a comprar a própria liberdade? Ou por que alguém preferira vender sua liberdade para se tornar um escravo? Provavelmente as condições da liberdade não eram nada atrativas.



Mesmo tendo um dos maiores intelectuais do mundo, com olhar progressista e abolicionista, os resultados obtidos por D. Pedro II não foram os melhores. No início do século, o Brasil tinha uma economia equivalente à dos Estados Unidos da América. Após o período imperial, os norte-americanos tinham um PIB mais que o dobro do nosso. Economicamente, claro que a escravidão limitava o consumo no país, mas seria diferente se mudássemos apenas isso? Ou a escassez de liderança impediria isto também? O que os professores de história mencionavam como a elite agrária do Brasil não seriam equivalentes aos “campeões nacionais” criados pelo antigo governo?

Neste contexto, trago a reflexão novamente para os dias de hoje. Até que ponto que pessoas que vivem na informalidade, trabalhando arduamente para comprar comida e criar condições básicas, estão melhores que os escravos do século XIX que, mesmo sendo posse de outras pessoas, trabalhavam e recebiam comida, abrigo etc.? Obviamente que os casos mais estremos não seriam melhores. Mas o objetivo desta reflexão é nos questionarmos, a escravidão realmente acabou? Ou apenas mudamos seus moldes? Independente do motivo ou da classe social, nós temos, de fato, liberdade? Talvez alguns se escravizem por dinheiro, outros por poder, outros por ego. Podem ser formas diferentes desta nova escravidão

Ao estudar mais o século XIX, percebo que quase duzentos anos se passaram e os questionamentos continuam os mesmos. Apesar da evolução que nos fazem acreditar, mudamos muito pouco nossa essência.

Quando morei na França, questionei muito o Brasil. Nosso nível de infraestrutura limita absolutamente nosso desenvolvimento e agrava ainda mais a desigualdade econômica. Destas reflexões, percebi que a igualdade gera a estagnação. Era nítido o quanto as pessoas não queriam se qualificar e crescer nas suas carreiras, uma vez que isso não se refletiria na remuneração. Na minha percepção, precisamos combater a pobreza, não a desigualdade. Não somos todos iguais, cada um tem sua ambição, seus desejos e suas individualidades e precisamos tratar de maneira desigual as pessoas que não são iguais. Precisamos sim gerar oportunidades para que todos possamos expressar nosso potencial.

Falando sobre este assunto com um amigo francês, ele me acalmou. A pergunta dele foi: quantos anos o Brasil tem de república? Eu disse, cerca de 130 anos. Ele respondeu, então, a França tem 300 anos e só agora estamos aprendendo a votar e amadurecendo nossa nação. Estas, muitas vezes, são questões de maturidade de um país, o Brasil ainda é um país jovem.

De fato, somos uma nação jovem. Desde a redemocratização, apenas 2 presidentes eleitos pelo povo passaram a faixa presidencial para um outro presidente eleito pelo povo. Ainda assim, fico intrigado com a nossa dificuldade em evoluir.



Analisando as pautas de debates da redemocratização e comparando-as com as atuais, nos mantivemos nas exatas mesmas discussões. Reforma tributária, previdência, administrativa, saneamento básico, privatizações etc. As pautas são as mesmas e as propostas continuam inexistindo. Claramente não temos uma discussão de qual país queremos para o futuro, não temos um projeto de nação, apenas projetos de poder. Todos os candidatos se apresentam como salvadores da pátria.

Na contínua busca por heróis nacionais, continuamos sendo uma nação que cresce abaixo da média global. Analisando os dados de crescimento do PIB per capta, fica ainda mais evidente o quanto não há consistência na presença do Brasil. Sempre que acreditamos que houvesse um período de desenvolvimento, como eu mesmo acreditava que havia sido entre 1990 e 2010, na verdade vivemos um período de crescimento global. Nós apenas acompanhamos o crescimento das principais nações do mundo. Normalmente, em seguida, sofremos um baque, mais forte que a média do mundo. Sem querer me colocar como um analista, mas já dando meu pitaco, provavelmente pela falta de mudanças estruturais. Ou seja, estamos sempre correndo atrás do próprio rabo.

Como nação, está na hora de sermos protagonistas. Puxarmos o mundo, e parar de ser apenas seguidores. Precisamos nos posicionar e definir como vamos chegar lá. Mas para isso, precisamos ter maturidade para discutir o projeto de longo prazo que queremos. Sem o desenvolvimento de lideranças fortes e dispostas a fazer isso, seguiremos em uma discussão completamente polarizada, que nos leva ao caminho oposto a evolução.

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