Esporte é vida, equilíbrio e autoconhecimento

 Na minha vida, desde pequeno, tive o esporte muito presente. Comecei na natação e nem me lembro deste momento. Chutava bola desde o primeiro ano de vida. Fiz judô, muai-thai, MMA e adorava artes marciais. Bicicleta foi meu principal meio de transporte dos 12 aos 16 anos.

Sou apaixonado pelos esportes, desde praticar até acompanhar. Olimpíadas e copa do mundo são momentos em que me conecto da TV, em cada intervalo que posso. Sou fanático pelo Clube Atlético Mineiro a ponto de ficar nervoso se não consigo assistir a algum jogo. O esporte é uma enorme válvula de escape para mim.

Atualmente, estou focado no Triathlon. Em 2010, participei de minha primeira prova, fazendo revezamento com alguns primos. Foi curioso, pois acompanhava os atletas em seus aquecimentos, e vivenciava uma situação muito diferente para mim. Aquele momento ficou marcado e me despertou um desejo de praticar este esporte. Porém, não tinha a disciplina necessária para tal nível de treinamento.

Aliás, disciplina foi uma palavra que me gerou muitas reflexões nos últimos tempos. Desisti de algumas jornadas promissoras em minha vida, por entender que elas não estavam alinhadas com meu plano de futuro. Por isso, meu pai repete exemplos até hoje desta desistência. Escutar algumas dessas afirmações repetidamente, me criaram uma crença de que eu não era uma pessoa disciplinada e precisaria desenvolver isso. O foco nas atividades físicas, que me fizeram perder 20kgs e culminaram no atual foco no Triathlon (o qual a meta é finalizar uma prova de Ironman 70.3 em abril de 2023, com a primeira prova na distância em outubro deste ano, na versão mineira o Uaironmein) vieram da necessidade de mostrar pra mim mesmo que posso ser disciplinado. Neste sentido, repliquei este modelo com diversas outras atividades, como a leitura, a escrita etc. Percebi, que na verdade, nunca fui indisciplinado. Diversos momentos de minha vida demonstram isso, porém nós quem precisamos escolher onde queremos dedicar, não são terceiros. Mais que isso, não podemos projetar em nós mesmos, crenças limitantes que outros nos colocam. O esporte me impulsionou a enxergar isso.



Desde minha infância, tenho um péssimo relacionamento com meu corpo. Minhas brigas com a balança foram constantes. Comecei o acompanhamento nutricional aos 7 anos. Meus pais sempre pegaram no meu pé, mesmo quando eu estava assessorado, em relação a comida. Tudo isso, criou uma relação com a balança, o corpo e a alimentação muito ruins. Até hoje, tenho crenças em relação a isso que não consegui superar, mas ainda são mais fortes que eu.

Quando voltei da França, vinha com bons hábitos de treinos. Consegui me organizar para alimentar melhor, perdi bastante peso e treinava diariamente. Amava treinar. Neste momento, coloquei como um objetivo fazer uma prova completa de Triathlon. Fui entender as diferentes distâncias que existem e como treinar para este esporte. Até que no meio desta jornada veio a mudança para São Paulo, onde mantive os treinos, mas aos poucos não consegui priorizar o esporte. Foi uma escolha.

No meu processo de saída da Kraft Heinz, decidi priorizar o equilíbrio, conhecendo um pouco mais meu corpo, cuidando de mim e criando hobbies, que eu julgava não ter (apesar de nunca ter deixado de acompanhar os esportes fielmente). Estava 20kgs mais pesado que hoje e me julgava uma pessoa indisciplinada. Comecei a me dedicar nas atividades físicas, acordando as 5:00, todos os dias para treinar, ler e cuidar de mim. Neste processo, senti meu corpo e minha cabeça mudarem. Passei a dormir melhor, ter mais ânimo para as atividades do dia a dia, a me concentrar melhor.

A evolução desta rotina, mesmo com a chegada da pandemia, me levou a nível físico e mental bastante interessante, que me possibilitou sonhar com desafios maiores. A meia maratona do Rio de Janeiro seria meu primeiro desafio, mas foi cancelada. Dois anos depois, consegui concluir com louvor, atingindo o melhor ritmo que eu já havia corrido. Os treinamentos e as provas me ensinaram muito. O Duathlon do X-Terra de Tiradentes foi o primeiro desafio cumprido. Chorei de emoção ao cruzar a linha de chegada. Em 2022 os desafios foram aumentando, concluído duas etapas de Triathlon sprint (a segunda seria olímpica, mas o evento cancelou esta distância). Agora venho treinando para as distâncias longas.


O Triathlon tem me ensinado muito. A disciplina diária de treinos, mesmo com muitas barreiras, nos faz reforçar diariamente o desejo de cumprir os desafios. São familiares questionando os treinos de bicicleta no asfalto, o volume de treinos, a ausência em alguns momentos, os amigos que sentimos falta de estar perto, dentre outras barreiras. Ao mesmo tempo, o ambiente da modalidade é incrível, todos se apoiam e um clima de amizade com pessoas que vemos pela primeira vez. Neste caso, cada um está competindo consigo mesmo, superando os próprios desafios. Não adianta querer estar no pódio, ou se comparar com outros atletas, porque cada um sabe o seu limite, o tanto que se preparou e qual o seu objetivo naquela prova.


Durante esta jornada, outros momentos foram surgindo. Recentemente, tenho me dedicado a estudar um pouco de música, através da flauta doce. O objetivo é aprender um pouco, manter a disciplina e incentivar minhas pequenas a buscarem atividades que possam desenvolvê-las física e mentalmente. Tanto os treinos do esporte quanto da música, me levaram a uma reflexão importante sobre a constância e consistência. Por mais disciplinado que eu possa ser, por mais que eu treine diariamente boas horas, não conseguiremos pular etapas. Não podemos nos comparar aos colegas ao lado, principalmente aqueles que se dedicam àquela atividade há mais tempo. Por mais que você treine uma hora a mais diariamente que um corredor que corre há 10 anos, enquanto você treina há 2 anos, dificilmente estará no mesmo nível. Por quê? Porque a constância faz toda diferença. Quanto mais tempo persistimos com a disciplina, mais natural aqueles movimentos vão ficando para nosso corpo. A intensidade não substitui este tempo. A consistência vem a partir do momento que conseguimos manter a disciplina e a constância, para evoluir um passo de cada vez, mantendo a performance elevada. Profissionalmente, sou fã absoluto da consistência e acredito que devemos buscar entregar resultados consistentemente.


Nossa geração costuma querer resultados muito imediatos. Busca-se dietas milagrosas, treinos intensos e pouco duradouros. Muitas vezes somos tão intensos que nos tornamos incapazes de sermos consistentes. Dedicamos toda a energia a uma única coisa e quando dá errado, desmoronamos, porque não estruturamos outros pilares que dão equilíbrio a nossa vida.

O esporte que escolhi me dedicar tem um exercício interessante, mental. São muitas barreiras que temos que transpor, assim como em outros desafios pessoais e profissionais. Inclusive as barreiras do nosso próprio corpo. Diversas vezes, durante os treinamentos, o corpo tenta boicotar. Nós mesmos tentamos nos acalentar, dizendo que merecemos ou podemos deixar aquele treino para depois. Mas este fato, nos impede de ter um momento mágico, que é cumprir um objetivo traçado por nós mesmos, assumindo todas as consequências deste objetivo. Além disso, conciliar treinamentos de três modalidades diferentes, além das transições, são um grande desafio, principalmente para quem acredita que só podemos entregar grandes resultados com foco exclusivo.

Recentemente, um artigo publicado pela McKinsey abordou o caminho dos profissionais e das empresas modernas, comparando-as aos triatletas. Apesar de iniciante e amador, este artigo me despertou o interesse em escrever este texto, justamente por todas estas reflexões que o esporte tem me gerado.

Em geral, quem começa no Triathlon vem de uma das modalidades, seja ela natação, ciclismo ou corrida. No meu caso, minha atividade preferida é o ciclismo e a corrida sempre foi uma válvula de escape, para fazer treinos sem necessitar muita estrutura ou material (apenas um short e um tênis). A natação veio em consequência, pela sinergia e necessidade para o esporte. Assim como os triatletas, a McKinsey demonstra que esta expansão do core business, buscando espaços na jornada de compra dos consumidores são fundamentais para o crescimento e expansão de rentabilidade de empresas, principalmente no setor de bens de consumo. Esta expansão pode vir tanto pela entrada em novas categorias, como em uma expansão geográfica. Porém, assim como no esporte, muitas empresas pensam que o seu core é fixo e congelado, e deixam de expandir o horizonte em novas “modalidades”.

As empresas de bens de consumo atuais, em meu ponto de vista, precisam ter os clientes e consumidores como seu core business, entendendo os movimentos do mercado, janelas de oportunidade em determinadas categorias e momentos de consumo, para então buscar preenchê-las, aproveitando do modelo de distribuição e go to market. Este modelo fará com que a companhia entre rapidamente em alguns momentos e aproveite oportunidades em oceanos azuis, antes que a concorrência chegue. É natural que em alguns casos, esta expansão possa vir via aquisições, uma vez que outras empresas tenham capacidade de identificar certas oportunidades e agir de maneira mais rápida.



Para conseguir atingir este crescimento e potencial de margem, as companhias precisam, segundo o artigo da McKinsey, agir como triatletas, equilibrando os treinos nas diferentes modalidades, para estar preparado para a prova. Ao mesmo tempo, é importante saber em qual modalidade somos mais fortes, pois ali conseguimos ganhar desempenho com menos energia, e conseguir entregar o resultado esperado no fim de cada desafio.

Por fim, o esporte, que sempre fez parte de minha vida, tem cada vez mais trazido grandes ensinamentos e reflexões. Além do equilíbrio, da saúde e da válvula de escape que se tornou em minha vida, ele conecta com diversos pontos e competências que julgo ser importante. Assim como tudo na vida, vão haver momentos em que conseguiremos dedicar e priorizar um pouco mais e outros um pouco menos. O mais importante é fazermos esta escolha de maneira consciente e não deixar outras pessoas fazê-las por nós. Tendo isso em mente, a prática consistente nos fará crescer em autoconhecimento, sem deixar com que julguemos nossas próprias competências por vieses de terceiros.


Referências:

https://www.mckinsey.com/industries/consumer-packaged-goods/our-insights/the-growth-triathlon-three-pathways-to-extraordinary-growth-in-the-consumer-sector?stcr=F1E4EEF60B9C4C3E919B3811933F67A1&cid=other-eml-alt-mip-mck&hlkid=6f93a42b282642f3a37a5a41b06111b8&hctky=12574186&hdpid=974d2e2e-81c5-4e4e-be52-0cac21e38af7

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